Um dos estereótipos mais combatidos por bissexuais é o de que seriam pessoas indefinidas. O respeito à diversidade não admite tal adjetivo, mas o fato é que atualmente o conceito de bissexualidade, ele sim, passa por revisões. Ao ponto de fazer sentido a pergunta: o que é realmente ser bissexual?
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Ao mesmo tempo que celebra o 23 de setembro, Dia Nacional da Visibilidade Bissexual, o integrante do Núcleo BiPanPoli (de Bissexuais, Pansexuais e Polissexuais) da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Walter Matelaro Neto, 33 anos, reconhece que o debate mais aprofundado sobre gênero e orientação sexual tem mudado certezas até então postas.
O primeiro conceito que tem esmaecido é o do que ser bissexual é ter atração por homens e mulheres.
Parte do rompimento da binaridade na orientação sexual vem da desconstrução por alguns teóricos e dentro do ativismo da ideia de existir apenas dois gêneros.
Walter enumera alguns para além do homem e mulher. "Existem inúmeros gêneros, No Brasil, por exemplo, vejo homem, mulher, travesti, queer, agênero, pessoas não-binárias."
Com isso, estaria errado pensar automaticamente que ao indivíduo dizer que é bissexual significar que ele tenha atração por homem, por exemplo.
Uma pessoa que se atraia por mulheres cis e por travestis seria bissexual? Walter afirma que pode ser sim, desde que a travesti se veja de outro gênero que não o feminino.
Mas ao mesmo tempo afirma que pode ser que não. "Tem de ver como a pessoa se identifica, se ela se vê como de outro gênero."
No caso, então, se a travesti se coloca como integrante do gênero feminino, então não se trataria de bissexualidade de quem se relaciona com ela. A pessoa seria heterossexual.
Prefixo bi perde o sentido
As novas visões são tão amplas que fazem até o prefixo bi (de origem no latim para exprimir dois) perder o sentido.
A advogada e bissexual Thaís Boamorte explica tal mudança conceitual.
"Acreditava-se que a bissexualidade era apenas atração por dois gêneros, o que era uma visão monossexista. Hoje ao explicar a bissexualidade, entende-se a atração por dois gêneros ou mais."
No que Walter concorda. "Cada pessoa tem experiência própria na vivência da sexualidade. Hoje colocamos o fato de que bi, tal como pessoas pan, podem sentir atração por mais de um gênero. Somos, essencialmente, integrantes de movimento monodissidente", afirma Walter.
Bissexualidade até se iguala a pansexualidade
Tanta fluidez de conceitos não só os embaralha, até faz com que se equivalam.
O bissexual e influenciador digital Nick Nagari lembra que o termo pansexualidade (atração por todos os gêneros) veio em contexto histórico no qual a bissexualidade estava presa a divisão binária entre homens e mulheres.
Com as novas formas de pessoas bissexuais saírem da leitura restrita de gêneros e com o fato de haver compreensão de diferentes formas de viver o feminino e o masculino, os dois termos passaram a ser sinônimos.
"Podemos ver que a diferença 'prática' entre bissexualidade e pansexualidade não existe. O que leva cada pessoa a se reivindicar como uma das duas é o 'contexto histórico' e 'a afinidade com cada movimento', mas ambas significam a mesma coisa em essência", escreveu em thread que viralizou.
A prática é exemplificada por Walter. "Eu gosto de me identificar como pan. Mas muitas pessoas me perguntam se isso significa se faço sexo com animais, com plantas... Então, algumas vezes, só digo: "Prazer, meu nome é Walter, sou bi". Sei que as pessoas vão entender sem precisar eu explicar muita coisa."